Arte e Cultura

De adornos a preciosidades: a evolução do design de joias

As joias sempre foram peças únicas e preciosas, mas hoje se destacam pela combinação entre as tendências da moda, habilidades artísticas e técnicas avançadas

 

O design de joias é uma das primeiras formas de arte e decoração desenvolvidas pelas civilizações humanas. Há sete mil anos, as mais antigas sociedades de que se tem registro, na Mesopotâmia e no Egito, já manipulavam diversos materiais para a criação de peças decorativas. Ao longo dos séculos, esse trabalho evoluiu de muitas formas, até chegar aos métodos sofisticados de moldar metais e lapidar pedras preciosas existentes nos dias de hoje.

Antes da fabricação de uma joia, é necessário que seu design seja concebido, levando em consideração sua função e matéria-prima. A seguir, é realizado um detalhado desenho técnico, que servirá como base para a produção da peça. Por isso, o designer de joias precisa ter conhecimentos profundos sobre as propriedades e comportamentos de diferentes materiais, as técnicas de manipulação, a composição e a durabilidade das joias, além das principais tendências desse mercado.

Esboços manuais ainda são utilizados para esse tipo de produto, principalmente nos estágios conceituais. No entanto, atualmente são muito comuns programas de design nos quais é possível desenvolver tudo digitalmente. Enquanto as joias tradicionais eram moldadas por artesãos, hoje o trabalho também pode ser facilitado por impressoras 3D.

História do design de joias

Antigamente, o valor dos objetos de adorno pessoal era determinado pela dificuldade envolvida em sua produção e também por seus componentes. No decorrer dos séculos, de acordo com cada cultura ou localização, os materiais considerados raros ou valiosos variavam muito  – passando por conchas, ossos, pedras, chifres, garras e madeira até os chamados metais preciosos ou semipreciosos, pérolas, corais, contas de vidro e cerâmicas.

A história da joalheria possivelmente tem suas origens em um antigo costume, observado nas mais remotas civilizações: o de enterrar os mortos com suas roupas e adornos mais preciosos. Tanto pinturas quanto esculturas e mosaicos históricos são testemunhos de que peças de joalheria eram utilizadas nos mais variados períodos e países do mundo. É provável que os homens pré-históricos tenham pensado em decorar seus corpos com ornamentos primitivos até mesmo antes de conceberem suas primeiras tentativas de vestuário.

Exemplos de joias que se assemelham ao padrão desenvolvido na atualidade já podiam ser encontrados nas civilizações romana e bizantina. Os egípcios também são conhecidos por transformarem os mais variados materiais em peças ornamentais, frequentemente com significados religiosos. Já para os povos orientais, os trabalhos em joalheria tinham o objetivo de complementar as vestimentas, ao invés de simplesmente decorar o corpo humano (objetos decorativos para os cabelos eram muito comuns, enquanto colares, brincos e braceletes eram mais raros).

 

Joia encontrada na múmia do rei Tutancâmon, simbolizando a integridade do corpo

 

Já no período do Renascimento, na Europa, a arte do design de joias realmente despontou, com um destaque principalmente para os trabalhos em ouro. Foi nessa época também que se desenvolveu a técnica de lapidação de pedras preciosas. Os pedidos de joias geralmente eram comissionados por membros da nobreza ou do clero, para serem usados em eventos comemorativos, como demonstração de status, poder e riqueza. Foram as tecnologias de moldagem e forja desenvolvidas durante esse período, principalmente para trabalhar o ouro e outros metais preciosos, que deram origem ao movimento da arte barroca.

Já no século 20, houve uma mudança na percepção do público com relação ao design de joias e sua função social. Tradicionalmente, essas peças eram consideradas sagradas e muito valiosas, mas passaram a ser vistas como simples objetos. Além disso, nessa época, o estilo da joalheria transitou por diversas tendências, incluindo Art Nouveau (1900–1918), Art Deco (1919–1929), Estilo Internacional & Organicismo (1929–1946), New Look & Pop (1947–1967), Globalização, Materialismo e Minimalismo (1968 em diante). Não há dúvidas de que a criação e a fabricação de joias foram influenciadas por fatores econômicos, sociais e tecnológicos.

Contudo, as referências fundamentais do design de joias, as principais técnicas de produção e os materiais mais procurados para a manufatura das peças ainda permanecem os mesmos do início do século passado. O que se desenvolveu foram tecnologias e maquinários, que permitiram aos artistas concretizar suas ideias com maior facilidade, mesclando novas alternativas de produção aos antigos métodos manuais. Esses avanços também impactaram o significado e o valor social das joias.

 

Principais designers brasileiros

Embora a arte da joalheria tenha suas origens do outro lado do oceano, o Brasil possui diversos nomes que se destacam no cenário contemporâneo da criação de joias. Em um país conhecido por sua natureza exuberante e acostumado às altas temperaturas, a consciência do corpo e da estética são características marcantes no estilo de joias criadas pelos designers brasileiros. Trata-se de um povo expressivo e extremamente visual, por isso as criações do mercado de joalheria nacional trazem elementos vibrantes e fluidos, que remetem ao nosso clima e às nossas paisagens.

Entre as marcas nacionais que se destacam mundialmente, a H. Stern não poderia deixar de ser citada. A empresa foi fundada em 1945 por Hans Stern e atualmente é comandada por seu filho, Roberto Stern. Com mais de 150 lojas na América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia, a marca possui joias assinadas e produzidas individualmente, sempre considerando as tendências mais atuais de comportamento, estilo e moda. Suas coleções já foram inspiradas em celebridades como o músico Carlinhos Brown, a artista plástica Anna Bella Geiger, a estilista Diane von Fürstenberg, o arquiteto Oscar Niemeyer e o paisagista Roberto Burle Marx. Além disso, Angelina Jolie, Cate Blanchett, Eva Longoria, Sharon Stone e Catherine Zeta-Jones são algumas das atrizes que já usaram joias da H. Stern.

 

Coleção da H. Stern em homenagem a Roberto Burle Marx

 

Outra marca brasileira de joias que tem deixado sua marca no cenário do design é a Hueb. Fundada nos anos 1980 por Fádua Hueb, também possui inúmeras boutiques ao redor do mundo, incluindo Nova York e São Paulo. A Hueb se especializa em criações detalhadas e impecáveis, extremamente delicadas e modernas. A história da empresa começou quando sua proprietária decidiu criar o tipo de joias que suas amigas procuravam, mas que não existiam no mercado. A coleção desenvolvida a partir desse conceito imprimiu nas peças a cor, a energia e a beleza tão características do Brasil. Cada produto foi desenhado para complementar – e não definir – o estilo pessoal de quem o estivesse usando.

Além dessas renomadas marcas que já conquistaram o mercado de joias (tanto nacional quanto internacional), diversos designers brasileiros contemporâneos se destacam pela criatividade e originalidade de seus trabalhos, elevando essa área ao patamar de arte. Selecionamos alguns desses talentosos profissionais:

 

Silvia Furmanovich

A joalheira Silvia Furmanovich teve contato com a arte da ourivesaria já na infância, observando seu pai trabalhar na oficina de casa. Em seu ateliê, montado há mais de duas décadas, ela utiliza técnicas ancestrais, com inspirações contemporâneas, agregando ao trabalho lembranças de viagens e memórias afetivas. Cada peça é única, mas a temática busca refletir formas da natureza, combinando ouro com marfim, turquesa, coral, madeiras e pedras preciosas. A designer está sempre pesquisando novos e inesperados materiais (que incluem conchas, penas e até mesmo folhas) e acompanha de perto o trabalho do ourives que produz suas criações.

 

Carla Amorim

A brasiliense Carla Amorim é designer de joias desde 1993 e tem como tripé de seu trabalho a natureza em todas as suas formas, a arquitetura de Brasília (com as linhas geniais de Oscar Niemeyer) e sua religiosidade. As criações da joalheira incluem brincos, anéis, pulseiras e colares, com materiais como diamantes, safiras, esmeraldas, turmalinas, tanzanitas, gemas brasileiras, pérolas e ouro 18K em vários tons.

 

Maria Oiticica

A originalidade e o valor da diferença são as principais características das criações da designer de joias Maria Oiticica. O conceito de suas biojoias é a atitude ética, tendo como principal foco a responsabilidade social e ambiental. As joias são ecológicas e produzidas com matérias-primas da natureza brasileira, incluindo sementes e fibras de plantas amazônicas.  Maria Oiticica tem como parceiras diversas tribos indígenas, que atuam como fornecedoras e artesãs de suas peças. O estilo de vida desses povos, suas ferramentas e habilidades, fornecem à artista inspiração para seus designs.

 

Fernando Jorge

As joias de Fernando Jorge refletem alguns dos elementos naturais mais cativantes do Brasil – desde as curvas oceânicas de sua coleção inaugural até a fluidez de sua recente série inspirada em flores tropicais. Muitas das obras empregam pedras coloridas, como esmeralda e opala, sempre imbuídas de sensualidade, energia e movimento. O designer usa fornecedores locais, sendo o responsável por finalizar as peças, dando a elas um aspecto escultural, ao mesmo tempo elegante e moderno.

Tendo se formado em São Paulo, Fernando Jorge trabalhou durante quase dez anos em diversas joalherias brasileiras antes de se mudar para Londres e estudar Jewellery Design no Central Saint Martins. Sua primeira coleção, lançada em 2010, foi muito bem recebida pela crítica e ajudou o designer brasileiro a estabelecer sua marca no Reino Unido. Hoje, além de ser premiado internacionalmente, ele possui peças em lojas de Londres, Paris, Berlim, Beirute, Nova York, Miami, Los Angeles e Dallas. Atrizes como Allison Williams, Emmy Rossum e Olga Kurylenko já usaram joias do designer brasileiro, que não pretende abandonar suas raízes nem sua cultura nas criações da marca.

 

Ara Vartanian

Queridinho da atriz Kate Moss, o designer de joias Ara Vartanian se especializa em peças únicas, com toques modernos. A supermodelo não apenas se tornou amiga do brasileiro, como o encorajou a abrir uma boutique em Londres, em 2016. Instalada em um edifício de estilo industrial, que contrasta com o brilho das pedras preciosas, a arquitetura da loja representa o conceito por trás das criações de Ara: uma junção de elementos opostos, ao mesmo tempo rústicos e refinados. O designer também se inspira no universo e no simbolismo de seu próprio nome, que é o mesmo de uma constelação.

 

Antonio Bernardo

Antonio Bernardo é dono de uma boutique conceitual que aposta no minimalismo inovador. Suas criações transitam entre a joalheria artesanal e os sofisticados processos industriais do design contemporâneo, para criar peças que lembram esculturas, com destaque para as obras em ouro branco. Suas palavras de ordem são a experimentação, a sensibilidade empírica e o rigor produtivo.

 

Ana Khouri

A atriz Jennifer Lawrence com uma das peças criadas por Ana Khouri

O processo de design das joias de Ana Khouri envolve simplicidade e anatomia. A artista foi uma das primeiras a popularizar as joias decorativas para as mãos, como a que foi usada pela atriz Jennifer Lawrence diversas vezes na press tour do filme Jogos Vorazes.

Ana estudou arquitetura em São Paulo, antes de aprender sobre pedras preciosas em Nova York, onde lançou sua primeira coleção, em 2013. As formas diferenciadas e inovadoras de suas criações atraíram o gosto de celebridades como Michelle Obama e atrizes hollywoodianas, incluindo Cate Blanchett, Julia Roberts, Naomi Watts, Charlize Theron e Glenn Close.

 

 

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